Nicolás Maduro chegou à presidência da Venezuela como herdeiro político de Hugo Chávez

 

Um documentário inédito exibido pelo Fantástico deste domingo (4) revela os bastidores da trajetória de Nicolás Maduro, desde sua ascensão política até a consolidação de um governo autoritário. A produção traz depoimentos de antigos aliados que hoje se tornaram opositores e mostra como o presidente venezuelano passou a ser alvo direto do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Nicolás Maduro chegou à presidência da Venezuela como herdeiro político de Hugo Chávez, mas, ao longo de 12 anos no poder, passou a governar com base na repressão e na propaganda, tornando-se um líder centralizador e autoritário.

A ascensão de Nicolás Maduro

Nos anos 1990, Maduro era motorista de ônibus nas ruas de Caracas. Sua trajetória política começou após se filiar ao Partido Socialista e ser enviado a Cuba, onde teve contato direto com o regime de Fidel Castro. Décadas depois, aplicaria essas lições como presidente de um dos países mais ricos em petróleo do mundo.

A era Chávez e o papel do petróleo

Antes agrícola e exportadora de café e cacau, a Venezuela descobriu a maior reserva de petróleo do planeta. Na década de 1970, o país viveu um período de prosperidade, com produção de até 3 milhões de barris por dia e padrão de vida elevado para uma pequena elite. A desigualdade social, no entanto, alimentou a revolução liderada pelo então tenente-coronel Hugo Chávez.

Após uma tentativa de golpe em 1992, Chávez foi eleito presidente em 1998. Ao seu lado desde o início estava Nicolás Maduro. O petróleo tornou-se peça central da revolução bolivariana. Com os recursos da estatal, milhões de famílias tiveram acesso à moradia e a políticas sociais.

“Nós diminuímos a pobreza de 70% para 7%. Foram avanços sociais importantes”, afirmou Rafael Ramírez, então ministro do Petróleo no governo Chávez.

Na época ministro das Relações Exteriores, Maduro articulava alianças estratégicas com Cuba, Rússia e Irã. Com a saúde debilitada, Chávez o escolheu como sucessor. Meses depois, o líder venezuelano morreu.

Consolidação do poder e repressão

Eleito por margem apertada, Maduro enfrentou resistência interna e passou a reforçar o controle do Estado. Nomeou o general Manuel Figuera para chefiar os serviços de inteligência.

“Ele passou a usar essa força como polícia política. Era como a Gestapo estava para Hitler”, relatou Figuera no documentário.

Até antigos aliados passaram a ser perseguidos. Rafael Ramírez afirmou ter sido alvo direto do governo. “Ele mandou me prender. Achou que eu poderia tomar o lugar dele. Invadiu minha casa e me forçou ao exílio.”

Em 2015, após perder a maioria no Parlamento, Maduro endureceu ainda mais o regime. A então procuradora-geral Luisa Ortega, antes aliada, rompeu com o governo ao denunciar execuções e abusos.

“Mais de oito mil venezuelanos foram executados pela polícia e pelo Exército”, declarou.

Crise econômica e pressão internacional

A crise se aprofundou com a decadência da estatal PDVSA, afetada por corrupção e falta de manutenção, somada às sanções impostas pelos Estados Unidos. O Lago Maracaibo, berço do petróleo venezuelano, passou a simbolizar o declínio da indústria.

Em 2016, Donald Trump tentou derrubar Maduro ao apoiar Juan Guaidó como “presidente legítimo”, mas a iniciativa fracassou.

“Acho que Maduro e sua mulher queriam ir embora, mas russos e cubanos os mandaram ficar, porque sabiam que, se ele saísse, o regime colapsaria rapidamente”, afirmou John Bolton, ex-conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca.

Com a guerra na Ucrânia e as sanções ao petróleo russo, o governo Joe Biden suspendeu restrições ao petróleo venezuelano, devolvendo relevância internacional a Maduro. O cenário mudou novamente com o retorno de Trump ao centro da política americana, pressionando por combustíveis mais baratos.

Propaganda e sobrevivência política

Entre ameaças externas, articulações internas e circunstâncias favoráveis, Maduro se manteve no poder. Investiu fortemente em propaganda, criando até um super-herói animado, o “Super Bigode”, para reforçar sua imagem de defensor do povo.

Agora, a Venezuela vive uma expectativa decisiva: saber se a população continuará sustentando esse personagem ou se o país finalmente virará a página de sua história recente.