Banco Master virou o maior colapso bancário da história

As histórias das insolvências mais notórias no Brasil costumam seguir o mesmo enredo. A decadência se inicia quando empresários ambiciosos assumem marcas de prestígio. Posteriormente, os executivos se envolvem em negócios arriscados ou adotam práticas fraudulentas de gestão. Resultado? De um dia pro outro as empresas quebram e de sinônimos de prestígio viram exemplos de fracasso.

O escândalo do Banco Master, por exemplo, seguiu esse enredo e se tornou o maior colapso bancário da história. Em novembro de 2025, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial da instituição, uma medida extrema tomada diante de uma grave crise de liquidez e indícios de irregularidades financeiras.

Desde então, o caso se tornou um dos mais complexos e comentados do sistema financeiro nacional, envolvendo investigações da Polícia Federal, disputas entre instituições como o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Supremo Tribunal Federal (STF), e a expectativa de mais de 1,6 milhão de clientes que aguardam o reembolso de seus investimentos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Ao mesmo tempo em que enfrenta a liquidação extrajudicial, um procedimento destinado a encerrar as operações da instituição e retirá-la do Sistema Financeiro, o Banco Master também se vê inundado por uma avalanche de processos judiciais no país, resultantes de uma série de problemas.

Um levantamento realizado pelo blog do Isaías Rocha junto ao site Escavador, plataforma digital brasileira que permite o acesso à informação jurídica pública, revelou que o Master aparece em 97.136 processos, sendo 1.759 deles somente no Maranhão. A pesquisa leva em conta ações protocoladas nos últimos 60 dias. Até o final do mês, os números podem crescer ainda mais.

Foram abertos processos contra a instituição financeira em todas as 27 unidades federativas e quem lidera o ranking é a Bahia, com 24.841 registros contra a empresa. Em seguida, vêm o Rio de Janeiro, com 15.430 processos abertos e São Paulo, com 13.676.

Amazonas ocupa o quarto lugar do ranking, segundo a pesquisa, com um total de 10.704 processos abertos contra o Master nos últimos três meses. Além dos quatro citados acima, Minas Gerais (6.362) ainda fica atrás de Rio Grande do Sul (4.920), Santa Catarina (2.393), Paraná (2.320), Pernambuco (2.164) e Goiás (1.945), fechando o top 10 dos estados com mais demandas judiciais.

Confira a lista de processos abertos por estado:

Posição/ Estado / Quantidade

1. Bahia: 24.841

2. Rio de Janeiro: 15.430

3. São Paulo: 13.676

4. Amazonas: 10.704

5. Minas Gerais: 6.362

6. Rio Grande do Sul: 4.920

7. Santa Catarina: 2.393

8. Paraná: 2.320

9. Pernambuco: 2.164

10. Goiás: 1.945

11. Maranhão: 1.759

12. Mato Grosso: 1.655

13. Paraíba: 1.469

14. Mato Grosso do Sul: 1.333

15. Amapá: 899

16. Alagoas: 586

17. Pará: 576

18. Sergipe: 547

19. Tocantins: 530

20. Rondônia: 447

21. Acre: 407

22.Distrito Federal: 372

23. Ceará: 347

24.Rio Grande do Norte: 346

25. Espírito Santo: 254

26. Roraima: 200

27.Piauí: 199

Trajetória

O Banco Master foi uma instituição financeira brasileira com sede em São Paulo. Fundado originalmente em 1974 como Máxima Corretora de Valores, transformou-se em banco múltiplo (Banco Máxima) em 1990. Passou por dificuldades nos anos 2010 e, em 2018, o controle foi assumido por Daniel Vorcaro, que liderou uma reestruturação societária e injeção de capital (cerca de R$ 400 milhões). A partir daí, a empresa adotou o nome atual Banco Master – mudança consolidada em 2021 – e traçou uma estratégia de crescimento arrojado.

Controle e atuação: Daniel Vorcaro, mineiro de 42 anos, era o principal acionista e presidente do Banco Master desde 2018. Outros sócios passaram a compor a administração após a reformulação. Sem uma grande rede de agências próprias, o Master atuava principalmente por plataformas de investimento e correspondentes bancários, além de expandir sua presença digital. Em fevereiro de 2024, adquiriu o banco digital Will Bank, incorporando mais de 6 milhões de clientes principalmente das classes C e D e ampliando sua base para mais de 10 milhões de contas em todo o país.

Atuação agressiva

O Master tinha perfil de banco de investimentos e crédito. Nos últimos anos, se destacou por captar dinheiro de investidores oferecendo CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com juros muito acima do mercado, a fim de financiar operações de maior risco.

Com esses recursos, o banco investia em empresas em dificuldade (turnaround) e expandiu sua carteira de crédito para segmentos como empréstimo consignado (desconto em folha para aposentados e servidores) e crédito pessoal, além de atuar em gestão de recursos, seguros e fusões e aquisições.

Essa estratégia permitiu um rápido crescimento: a receita saltou de cerca de R$ 190 milhões em 2018 para quase R$ 1 bilhão em 2019. O banco também comprou outras instituições, como o Banco Voiter (antigo Indusval, em 2022, posteriormente revendido) e lançou a seguradora Kovr (vendida em 2024 ao grupo J&F).

Antes da liquidação, o Master administrava dezenas de bilhões de reais em ativos. Só no primeiro semestre de 2024, registrou lucro líquido superior a R$ 500 milhões, com um patrimônio líquido em torno de R$ 4,2 bilhões. A instituição contava com aproximadamente 1.000 funcionários e atendia mais de um milhão de investidores de varejo em seus produtos de renda fixa.

Seus clientes incluíam desde pessoas físicas atraídas pelos altos rendimentos dos CDBs até empresas que buscavam operações estruturadas e crédito especializado. Em 18 de novembro de 2025, com a intervenção do Banco Central, o Banco Master entrou em liquidação, encerrando assim a trajetória de um banco que, em poucos anos, passou de promessa de alto crescimento a caso emblemático de crise financeira.