4 de mar. de 2024

Fora do jogo eleitoral, Dino tem herança política em disputa no MA

Dino passou 18 anos em cargos no Executivo e Legislativo, desde que deixou de ser juiz federal em 2006.

Cerca de três meses se passaram entre a indicação de Flávio Dino para o Supremo Tribunal Federal (STF) e sua entrada oficialmente na Corte, no último 22 de fevereiro. O período foi marcado por uma “disputa” de sua herança política no Maranhão.

Dino passou 18 anos em cargos no Executivo e Legislativo, desde que deixou de ser juiz federal em 2006.

Na época, se filiou ao PCdoB e foi eleito deputado federal. Ele ficou no cargo até 2011 e assumiu posteriormente a presidência da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur). Em 2014, venceu pela primeira ver a disputa para o governo do estado, sendo reeleito em 2018.

Em 2022, já no PSB, concorrendo ao Senado, recebeu 2,1 milhões de votos. Foram quase 1 milhão a mais que o segundo colocado, o ex-senador Roberto Rocha, então no PTB, que disputava a reeleição.

Agora, com seu retorno ao Judiciário, Dino não poderá mais participar da política partidária, e seus números eleitorais passam a ser disputados.

Isso aconteceria pelo fato de o ministro do STF ainda ter um bom retorno político-eleitoral no estado, de acordo com a avaliação de Raimundo Nonato Silva Júnior, professor de ciência política da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

“Boa parte dos deputados da bancada federal, a maioria da bancada estadual e um considerável número de prefeitos e prefeitas se elegeram na esteira de Dino”, cita o professor.

A influência do hoje ministro do STF, na avaliação de Nonato Júnior, ainda ajudou na eleição dos senadores do estado Weverton Rocha (PDT) e Eliziane Gama (PSD) — além, logicamente, de Ana Paula Lobato (PSB), que é suplente de Dino na Casa.

Traição e herdeiro político

Em janeiro, o deputado Rubens Pereira Júnior (PT) publicou nas redes sociais que um suposto “traidor” de Dino, que havia tentado derrotá-lo após um rompimento, agora tentava ser seu herdeiro político.

“Tem gente que traiu Flávio Dino, rompeu com ele, tentou derrotá-lo e, agora, vejam só, tenta ser herdeiro político dele!!!! É cada uma hahahahaha”, disse o deputado na ocasião, sem citar nomes.

A mensagem foi entendida por muitos como uma indireta a Weverton Rocha, que concorreu ao governo maranhense, em 2022, contra Carlos Brandão (PSB), apoiado pelo atual ministro do STF e eventual vencedor do pleito.

Segundo Rubens Pereira Júnior, o maior legado de Dino na política maranhense foi mostrar que a prioridade é governar para o povo e mudar a forma tradicional de se fazer política. “Quem não entender isso será atropelado no processo”, prosseguiu.

“Outras marcas que Flávio Dino sempre priorizou na sua atuação política: honestidade, lealdade, competência, coerência e trabalho duro. Tem mais: Flávio, na política, sempre teve lado. E isso conta muito”. Rubens Pereira Júnior

Pereira Júnior sempre atuou ao lado de Dino. Na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o teve como seu orientador da monografia para a conclusão do curso de direito.

Juntos, também estiveram na oposição ao governo de Roseana Sarney (MDB), época em que era Pereira Jr. era deputado estadual.

Em entrevista à CNN, o deputado afirma que Dino tem brincado atualmente que não é certo falar em herança, porque ele está vivo.

Na opinião de Pereira Júnior, a responsabilidade, hoje, de garantir a unidade política do grupo progressista que comanda o estado há 10 anos é totalmente do governador Carlos Brandão.

Brandão era vice-governador durante a administração de Dino e foi escolhido para ser seu sucessor.

“Ele está no local estratégico para poder conduzir a manutenção da sanidade”, disse o parlamentar sobre o governador. “O Flávio Dino construiu uma grande frente político partidária no Maranhão”, prossegue.

Enquanto estiver no STF, Dino não vai poder participar das discussões diretamente, segundo Pereira Júnior, exemplificando que o ministro já fez isso anteriormente.

“Quando ele era juiz federal, [Dino] mantinha uma distância saudável da política. Ele não interferia, não participava. E eu tenho prognóstico de que, como ministro do Supremo, ele fará da mesma forma.”

Na avaliação do professor Nonato Júnior, o governador Brandão tem maioria na Assembleia Legislativa, mas, no momento, começam surgir alguns focos de descontentamento na base de apoio, o que é “compreensível, considerando um grupo muito grande”, segundo o professor.

Relação entre Dino e Weverton

A fala de Pereira Jr. sobre herança política aconteceu em meio à troca de elogios do senador Weverton com Dino, no período que antecedeu a sabatina do indicado ao STF na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

O senador foi escolhido como relator do caso e deu um parecer favorável.

Weverton e Dino

Os dois romperam em janeiro de 2022, logo depois que Dino, então governador do Maranhão, anunciou apoio a Brandão na disputa ao Palácio dos Leões. À época, Weverton, também pré-candidato ao governo do estado, foi às redes sociais para dizer “desapontado” com a decisão do aliado.

A partir disso, o senador fez uma chapa “independente” para a disputa estadual, ficando em terceiro lugar com 20,71% dos votos, enquanto Brandão foi eleito em primeiro turno com 51,29%.

Em agosto de 2023, enquanto Dino era ministro da Justiça e Segurança Pública, os dois estiveram juntos em um evento e desde então, aliados do senador passaram a classificar a relação como “muito boa”.

À CNN, Weverton disse esperar que a fala de Pereira Jr. não fosse sobre ele, porque, além de um equívoco, seria “uma tremenda falta de conhecimento” de sua história e de Dino.

“Sempre estivemos no mesmo campo político, desde jovens. Apoiei o nome de Flávio nas duas vezes que ele foi candidato ao governo, mesmo quando ele ainda não era o favorito. Só estivemos em campos separados em 2022”, explica Weverton.

“E, ainda assim, é importante lembrar que não fui candidato contra ele. Então, o fato de conversarmos novamente após as eleições foi natural e tranquilo, já que nunca nos distanciamos dos nossos campos”, prossegue.

Sobre a eleição de 2022, o senador expressa que não concordava com a candidatura de Brandão “por não ser do mesmo campo de luta”. E, que, mesmo assim, nunca fez campanha contra Dino ou contra o presidente Lula.

“Não fiz campanha contra Flávio, nem fui seu adversário. O mesmo ocorreu em relação ao presidente Lula. Em função das nossas alianças partidárias, não estivemos no mesmo palanque, mas estávamos defendendo o mesmo Brasil.”Senador Weverton Rocha

Para Weverton, Dino sempre foi e sempre continuará sendo referência para o Maranhão. Entretanto, o cenário atual ainda é incerto.

“Com a ida dele para o STF certamente haverá mudanças no cenário político. Como ficará este cenário é algo que ainda está sendo construído. A política é dinâmica, comandada pelo eleitor e pelas circunstâncias, então é difícil dizer ainda como ficará”, finalizou.

O professor Nonato Júnior analisa que, no momento, existe um reposicionamento das forças políticas no estado, com o vácuo deixado pela saída de Dino e uma base “órfã”, com lideranças se movimentando para ocupar o espaço.

!É inevitável no campo que era liderado por Dino surgir atritos, conflitos e disputas. Poder não se transfere de forma automática ou de maneira outorgada.” Raimundo Nonato Silva Júnio. 

CNN Brasil 


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